por Acauan » 31 Jan 2006, 16:37
Capítulo 12 - Esaú e Jacó
Os que leram este Pequeno Manual até aqui podem interpretar que as observações sobre como entender os crentes terminam por igualá-los todos em um amálgama genérico, do qual são pinçadas as semelhanças e ignoradas as diferenças.
Uma interpretação mais correta foi dada no capítulo 7, quando dito que "Entender um grupo é, essencialmente, entender sua cultura." e "Dada a fragmentação dos crentes em uma miríade de denominações, muitas delas subdivididas em diversas vertentes, o olhar externo as identifica, a princípio, como um conjunto não uniforme de sub-culturas e micro-culturas derivadas da tradição cristã, semelhantes entre si por alguns pontos em comum e diferenciadas umas das outras por muitos pontos de divergência."
O entendimento, portanto, não requer apenas a identificação das semelhanças e diferenças reinantes no grupo observado, mas também e principalmente dos modos como semelhanças e diferenças interagem e convergem para uma identidade comum. Ou, em outras palavras, entender um grupo é descobrir sua unidade a partir de sua diversidade.
Entre os crentes a identidade comum é explicitada socialmente no costume de tratarem-se entre si por "irmãos".
Pode ser exagerado analisar as diferenças entre estes irmãos a partir de uma analogia bíblica com Caim e Abel, mas parece-nos suficiente tomar por comparativo Esaú e Jacó, que partem da mesma origem, entram em conflito, se afastam e se reaproximam conforme o momento de suas narrativas.
De modo semelhante os crentes se afastam e entram em conflito entre si por conta de suas diferenças, cujas principais são:
Teológicas - Calvinistas e Arminianistas, Fundamentalistas e Liberais;
Origem - protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, independentes e neocristãs,
Denominacionais - Dezenas de milhares de denominações;
De usos e costumes - Conservadores e modernistas.
Cada uma destas divisões pulveriza-se em facções, dissidências, variantes, modismos e fatores individuais.
Como há livre combinação entre as diferenças, crentes de uma mesma denominação podem divergir quanto a teologia, denominações da mesma origem não concordarem quanto a usos e costumes ou determinados modismos dividirem os membros de uma mesma congregação.
Tenho as diferenças teológicas como mais significativas, particularmente a controvérsia histórica que, dentre aqueles com conhecimento teológico mínimo, divide os crentes em Calvinistas e Arminianistas.
Os Calvinistas tem por fundamento os cinco pontos formulados por Calvino e conhecidos pela sigla TULIP, das iniciais em Inglês de total depravação, incondicional (unconditional) eleição, limitada expiação, irresistível graça e perseverança dos santos.
O resumo desta doutrina pode ser expresso no nome de uma flor, mas não é nem um pouco romântico, pois prega que o homem é um ser totalmente depravado, incapaz de optar livremente pelo BEM e assim é o próprio Deus quem desde antes da fundação do universo predestinou de modo irresistível seus eleitos para a glória eterna e os demais para uma viagem sem escalas para o inferno. Por esta doutrina o sacrifício vicário de Jesus de Nazaré teria sido destinado exclusivamente aos eleitos, os demais, literalmente, danem-se: a tal de expiação limitada.
Para os Calvinistas o livre arbítrio humano fere a soberania divina, logo, entendem que o homem não tem livre arbítrio coisa nenhuma e seríamos todos apenas marionetes da vontade divina.
A melhor ilustração do Calvinismo é a Teologia do Verme, que classifica os humanos como gusanos nojentos, que devem se dar por satisfeitos com qualquer coisa que venha de Deus, incluído aí o estranho hobby dele de criar seres vivos e conscientes com o único propósito de torturá-los pela eternidade afora.
Já os seguidores de Arminius (teólogo holandês do século XVI) costumam ser tidos como opostos dos Calvinistas e bem que gostariam de sê-lo, mas isto não é exatamente correto, já que esta doutrina, ao contrário do que muitos pensam, não nega a predestinação divina dos eleitos, apenas tenta conciliá-la com o livre arbítrio humano, que os Calvinistas rejeitam e os Arminianistas defendem.
Só que aí o bicho pega.
Os Arminianistas que crêem no dogma da inerrância e suficiência das Escrituras não podem negar as referências bíblicas à predestinação, mas se recusam a aceitar a tese Calvinista de que Deus tenha predestinado seres humanos ao inferno sem lhes dar qualquer oportunidade de redenção, reservada apenas para uma panelinha pré-selecionada.
O dilema dos Arminianistas é a escolha entre crer em um Deus cruel, negar o dogma da inerrância e suficiência bíblica ou tentar conciliar o aparentemente inconciliável - predestinação e livre-arbítrio.
Escolheram a última opção, o que torna as facções fundamentalistas do Arminiamismo bastante vulneráveis às críticas dos Calvinistas, que os acusam de desvirtuar as Escrituras para tentar tirar delas uma versão light de Deus, que lhes seria mais apetecível e digerível. Uma espécie de fundamentalismo a la carte, poderiam dizer.
O interessante desta divisão dos crentes entre Calvinistas e Arminianistas é que ela não é apenas faccional, é também pessoal, já que muitos crentes amargam um conflito interno permanente sobre por qual das duas optar, chegando vários a mudar de posição mais de uma vez, conforme suas dúvidas favoreçam esta ou aquela doutrina em determinados momentos.
Este dilema tem sua razão de ser.
A maioria dos crentes é cooptada através de um discurso religioso romântico e positivo, que fala de Fé, esperança, salvação, paraíso, regeneração, fraternidade, cura e outras coisas que as pessoas gostam de ouvir.
Como as pessoas não gostam de ouvir que não passam de vermes repulsivos, raramente a abordagem inicial de um prosélito crente se baseia na retórica Calvinista.
Este pragmatismo proselitista cria uma contradição teológica muito difícil de resolver no meio crente, que é o uso do discurso Arminianista como ferramenta de cooptação mesmo quando a base doutrinária da congregação é Calvinista.
Outro problema é quanto mais o Arminianista mergulha no fundamentalismo e literalismo bíblico, mais se convence do Deus terrível dos Calvinistas, tendo que aceitar que suas concepções de BEM, justiça e amor eram apenas ilusões de sua mente de verme ou mandar as favas o literalismo e o fundamentalismo.
Esta é uma escolha simples para o observador externo isento, mas muito difícil para o crente imerso nas doutrinas fundamentalistas.
Por falar no observador isento, é reação dele esperada que fique estupefato com a disposição dos Calvinistas em prestar adoração a um ser supremo que é a personificação do supremo sadismo. Mesmo porque terá dificuldade em conciliar o cerne da mensagem cristã – amor e perdão – com um potentado celestial que predestina suas criaturas a ter suas entranhas eternamente roídas e sofrer outros desconfortos igualmente indesejáveis.
Alguns Calvinistas ostentam um longo discurso que tenta justificar moral, lógica e teologicamente suas teses, derivando a premissa "tudo que vem da vontade de Deus é moralmente bom e justo, por definição", mesmo que esta vontade, segundo algumas vertentes, sempre que lhe apeteça mande bebês recém nascidos e não eleitos queimar no inferno.
Mas a maioria dos crentes não gosta de discursos teológicos longos, assim o principal atrativo que o Calvinismo lhes oferece é a promessa "uma vez salvo, salvo para sempre", a tal da perseverança dos santos da tulip, segundo a qual é impossível para os eleitos perderem a salvação, pois a irresistível predestinação divina os manteria na linha, quer queiram ou não.
Como o povo gosta mesmo é de segurança, os Calvinistas ganham aí um tento sobre os Arminianistas, que pregam que o crente que não perseverar na Fé Cristã pode perdê-la e, em conseqüência, terminar nas profundezas, aquelas onde o bicho que o rói nunca morre.
Para muitos Calvinistas, as implicações morais da predestinação se tornam uma preocupação menor diante da garantia doutrinária de que, haja o que houver, a parte ruim da coisa é reservada aos outros e não a eles.
Visto assim, se os crentes explicitam socialmente sua identidade comum se tratando entre si por "irmãos", há mais que uma controvérsia teológica separando Esaú e Jacó.
Eles acreditam em deuses diferentes ou em frações diferentes do mesmo Deus.
Editado pela última vez por
Acauan em 14 Abr 2006, 13:09, num total de 1 vezes
Acauan Guajajara
ACAUAN DOS TUPIS, o gavião que caminha
Lutar com bravura, morrer com honra.