


Herf escreveu:Achei os primeiros parágrafos meio forçados, mas em seguida ele acerta na mosca, em todos os aspectos.
Digo, não acho que exista uma conspiração na burocracia educacional para fazer tudo da forma mais errada possível, como acontece hoje, regulando-se todos os aspectos do ensino público e privado, para que todos permaneçam sem senso crítico.
Nesse aspecto, assim como todos os demais envolvendo a ação do estado, as pessoas simplesmente fazem aquilo que sempre foi feito, e nem lhes ocorre que as coisas poderiam ser diferentes. Daí que parece tão trivial o ensino compulsório de conteúdos determinados pelo estado que qualquer um que sugira algo diferente nem mesmo é levado a sério.
Mas, como disse, isso é só nas primeiras linhas do texto (o que pode comprometer a leitura do texto todo, já que muita gente nem lê o resto quando vê que o começo é ruim).


Existe ainda um ponto adicional que quero levantar sobre o ensino básico compulsório.
Não raro quando desesperados diante das evidências da completa falha do sistema de educação compulsória em ter qualquer mérito acadêmico, seus defensores começam então a apelar para dizer que mesmo que o benefício acadêmico seja nulo ou mesmo negativo, existem outros motivos para mantê-lo que não seja mera e aberta doutrinação. E então vem outro dos grandes truísmos sobre educação compulsória. Que ela é importante, não, essencial para o processo de SOCIALIZAÇÃO dos seres humanos em formação. Socialização. Ora, se há um contexto mais artificialmente inadequado à socialização do que a escola, eu desconheço. Trata-se de um ambiente no qual você é na maior parte do tempo proibido e punido por tentar se socializar, ou mesmo por dizer abertamente o que pensa, onde mesmo nos momentos em que a socialização é permitida ela é altamente regulada, no qual você não escolhe livremente com quem você está se socializando, ou quando, ou como, e aliás no qual a estratégia de socialização a você imposta é tão antinatural quanto “Você vai encontrar todo dia às 7 da manhã APENAS com as mesmas dúzias de pessoas precisamente da mesma idade para sentar em silêncio enquanto é forçado a ouvir longos monólogos sobre assuntos que não escolheu. No meio do expediente talvez tenha 30 minutos para falar com quem quiser, mas se tentar beijar alguém, ou discutir com alguém, ou mesmo ir até a esquina tomar um sorvete com alguém, será imediatamente impedido.” Não, não, não. Como experiência socializante, a escola é profundamente quebrada. Conviver somente com sua família seria provavelmente superior, embora MUITO dificilmente essa seria a escolha da esmagadora maioria das pessoas, que ao invés disso preferiria dez mil vezes ir à sua praça, ou clube, ou praia, ou parque, ou igreja e fazer amigos ou perseguir outros interesses pessoais. Inclusive descobrir seu próprio ponto de equilíbrio saudável entre socialização e introspecção, que é algo muito particular e pessoal, não parece muito favorecido por experiências cotidianas forçadas de socialização compulsória.
Claro, para que essa atividade de socialização extra-escolar fosse possível, talvez se fizesse necessária a supervisão de adultos. Mas se é essa a função que os “professores” estão cumprindo, então que seja, e que se deixem as crianças em paz, e livres para interagir. Se as escolas existem para socializar as crianças, então abandonemos todo esse sistema fascista que impede a socialização e concentremo-nos em construir um ambiente no qual as crianças sejam deixadas livres para explorar de forma suficientemente segura suas possibilidades sociais. E intelectuais. E culturais. E empresariais.


user f.k.a. Cabeção escreveu:
O texto é quse integralmente excelente e o autor foi muito feliz na escolha de exemplos e fatos demonstrativos. Foi extremamente difícil encontrar algo a se discordar num texto tão bem escrito e coerente, mas acredito que esse trecho final me parece na melhor das hipóteses mal desenvolvido, ou inocente demais.

Herf escreveu:Concordo integralmente com o seu comentário sobre a adoção de alternativas "modernas" em detrimento da educação tradicional ter tudo a ver com o fracasso da educação no Brasil, mas realmente não me parece que o autor do texto discordou disso.
Ele citou a aborrecedora rotina do estudante com o fim de atacar a desculpa esfarrapada da "socialização", essa usada como justificativa para o ensino estatal compulsório.
Edson Jr escreveu:Parece-me, se interpretei adequadamente, que a questão gira em torno de tornar o ensino “não-obrigatório” e/ou “privatizado”.
(...)
O que me incomoda um pouco em textos como do tópico é a visão “8 ou 80”. Exemplos bem sucedidos de países onde a Educação Compulsória foi bem sucedida, como no Japão, não são citados. Isso me leva a perguntar se os críticos da Educação Compulsória estão realmente querendo que a Educação melhore ou se estão tão-somente preocupados em malhar o sistema...

Luis Dantas escreveu:Acho que você não entendeu muito bem o texto, Edson. A questão é menos de se a educação deve ou não ser compulsória e estatal do que se ela deve ser melhor pensada, mais realista em suas metas e métodos, e mais respeitosa da natureza humana e da liberdade dos alunos.
Edson Jr escreveu:O texto inicial do tópico indica outros dois textos. Lendo-os dá para ter uma idéia de que existe a pretensão de tornar a Educação privatizada e não-compulsória. Pelo menos é o que aparenta.
Caso não leia os textos indicados deixarei aqui dois trechos de um deles que talvez confirme minhas desconfianças (observe as partes em negrito/sublinhado):
"...Assim sendo, na verdade, acho que até há algo que o governo pode fazer, como na maioria dos casos : parar de atrapalhar. Deixar surgirem mais escolas particulares. Deixar as escolas escolherem suas ementas e cargas horárias. Deixar as escolas escolherem suas mensalidades. Acabar com a obrigatoriedade da matrícula de menores em escolas. Deixar os pais e seus filhos escolherem o que vão estudar e onde. Acabar com a exigência legal de diploma para o exercício da maioria das profissões em que ele é requerido..."
“...Quem diz que isso é irreal, reflita que neste país, na época em que a telefonia estava nas mãos do governo, pobre não tinha telefone. Ponto. Após a privatização do setor, um dos resultado mais óbvios e palpáveis foi que agora não é mais necessário ser rico para ter um telefone..."

Luis Dantas escreveu:É, essa frase em negrito ficou meio estranha, mas no contexto me parece que foi mais uma distração do que uma proposta séria.
Luis Dantas escreveu:A tese do texto realmente envolve a diminuição da interferência estatal e a crença de que o resultado será melhor para a sociedade. Não posso dizer que discordo. Não se segue necessariamente que ele (ou eu) defenda a extinção completa do ensino público e/ou do ensino compulsório.
Luis Dantas escreveu:É fato, no mínimo, que a interferência governamental na educação dos cidadãos é fantasiosa, excessivamente pesada e francamente incompetente, a ponto de não ser levada a sério nem pelos próprios governantes. Por exemplo, o Arruda, governador do DF que está nas manchetes por outro motivo, extinguiu há cerca de um ano as turmas para alunos especiais na Secretaria de Educação.
user f.k.a. Cabeção escreveu:Ainda que burocratas tenham nos iluminado com critérios de progressão continuada, supletivos, dependências, cotas e outras babaquices do gênero, a grande culpa aqui é do professor.
user f.k.a. Cabeção escreveu:A atitude do professor honesto diante de alunos profundamente ignorantes é não somente de sinalizar a deficiência mas de investigar sua origem para em seguida atacá-la. Em outras épocas professores chegavam a ir a casa dos alunos em mais dificuldade para sondar quais eram as condições domésticas que poderiam estar causando um desempenho tão ruim. Era um trabalho árduo, mas do qual o profissional da educação extraía sua dignidade (e o seu salário).
user f.k.a. Cabeção escreveu:Hoje o professor se coloca na confortável situação naqual ele pode ignorar um aluno incrivelmente ignorante e mal educado durante um ano inteiro, para no final do período, após inúmeras avaliações fúteis nas quais a única coisa que se examina foi o êxito desse mesmo aluno em trapacear, o professor decidir se deve ser "magnânimo", permitindo que a besta passe e vá importunar outro colega, ou se deve ser "justo", reprovando o aluno por não ter assimilado aquilo que ele não fez o menor esforço para ensinar. De qualquer forma, ele pode dormir tranquilo.
user f.k.a. Cabeção escreveu:É claro que a situação atual é calamitosa o bastante para que cada professor individual possa atribuir essa conduta invariável ao sistema, ao fato que ele recebe alunos já muito burros, que ele já tentou coisas mas nunca teve feedback, e etc. um caminhão inteiro de conversa fiada.
user f.k.a. Cabeção escreveu:O fato é que sistematicamente os professores assumem a atitude mais fácil para eles, porque há muito aprenderão que a sua profissão se beneficia do fato de que a culpa quase nunca é atribuída a maus indivíduos e maus profissionais, mas ao "sistema" e outros coletivos indefinidos, que na verdade são apenas eles próprios, devidamente anonimizados na multidão.

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